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terça-feira, 4 de setembro de 2012

A Selva - DÉCIMA PRIMEIRA INSTRUÇÃO - Sobre a devoção à Virgem Santíssima

  Santo Afonso Maria de Ligório
(27/09/1696 - 02/08/1787)
Bispo de Santa Àgata
Confessor
Doutor Zelosíssimo da Igreja
Fundador dos Missionários Redentoristas

A Selva


SEGUNDA PARTE - MATERIAIS PARA AS INSTRUÇÕES
DÉCIMA PRIMEIRA INSTRUÇÃO


Sobre a devoção à Virgem Santíssima


Pode este assunto ser tratado nos sermões ou nas instruções, conforme se julgar preferível. Em todo o caso, quem dá os exercícios a sacerdotes, não deve passar em silêncio este ponto; porque este discurso é talvez mais útil que todos os outros. Sem a devoção a Maria, é moralmente impossível ser-se um bom padre.Vamos considerar, em primeiro lugar, que a intercessão da santíssima Virgem é moralmente necessária aos padres; veremos depois a confiança que eles devem ter na intercessão desta divina Mãe.

I - Necessidade moral da intercessão da santíssima Virgem

Quanto à necessidade da intercessão da Mãe de Deus, é verdade que o Concílio de Trento ( Sess. 25, De inv. Sanct.) declarou solenemente que a intercessão dos santos é útil, sem dizer que seja necessária. No entanto, a esta pergunta: “Somos nós obrigados a pedir aos santos que intercedam por nós?”1 Santo Tomás responde afirmativamente, porque a ordem da lei divina exige que, na condição de viadores, nos salvemos por meio dos santos, obtendo por sua mediação as graças necessárias à salvação. Eis as suas palavras: “Segundo S. Dionísio, a ordem dos seres exige que os últimos regressem a Deus por intermédio dos que estão mais próximos dele. E, como os santos que estão na pátria se acham muito próximos de Deus, exige a ordem da lei divina que nós, retidos longe do Senhor pelos laços do corpo, regressemos a ele por meio dos santos”. Depois ajunta: “Assim como os benefícios de Deus nos advém por meio dos sufrágios dos santos, assim também é necessário que por meio dos santos nos voltemos para Deus, para recebermos dele novos benefícios”2. O mesmo pensamento se encontra expresso noutros autores e especialmente no continuador de Tournely, que diz com Sílvio: Somos obrigados pela lei natural a observar a ordem estabelecida por Deus; ora Deus estabeleceu que os inferiores cheguem à salvação implorando o socorro dos superiores3.
Mas, se isso é verdade de intercessão dos santos, muito mais da intercessão de Maria, cujas preces diante de Deus são mais poderosas que as de todos os santos. Diz o Doutor angélico que os santos, em razão da graça abundante que Deus lhes dá, podem salvar um número mais ou menos considerável de outras almas, mas a Virgem bendita mereceu uma graça tal, que pode salvar todos os homens4. E, segundo S. Bernardo, assim como temos acesso a Deus por meio do seu Filho, Jesus Cristo, assim temos acesso ao Filho por meio da Mãe: “Que por vós tenhamos acesso junto do vosso Filho, ó Mãe da Salvação, ó vós que encontrastes a graça, para que por vós nos receba o que por vós nos foi dado5. Donde conclui que todas as graças de Deus nos advém por meio de Maria: “Deus constituiu Maria depositária de todos os bens, de modo que, se alguma esperança de graça e de salvação existe para nós, devemos reconhecer que é como uma emanação da superabundância daquela, que se eleva cumulada de delícias, para difundir por toda a parte os perfumes da graça”.
Dá o santo a razão desta disposição: “Tal é, diz ele, a vontade daquele que dispôs que todo o bem nos adviesse por Maria6. É o que também significam todos os textos da Escritura que a Igreja aplica a Maria: Quem me encontrar, encontrará a vida e salvar-se-á no Senhor7. Em mim está toda a graça da vida e da verdade; em mim toda a esperança da vida e da virtude...Os que trabalham para mim não pecarão. Os que me fazem conhecer terão a vida eterna8.
Mas o que a Igreja nos faz dizer na Salve Regina, basta para nos confirmar a todos neste sentimento: ensina-nos a invocar a santíssima Virgem, chamando-lhe a vossa Vida e a nossa Esperança 9.
S. Bernardo nos exorta a recorrer a Maria com uma confiança segura de obtermos as graças que lhe pedirmos, porque o Filho de Deus nada sabe recusar a sua Mãe. E acrescenta que era ela o fundamento da sua esperança10.Conclui por dizer: todas as graças que desejarmos, devemos pedi-las pela intercessão de Maria, que obtém tudo quanto quer, e não pode encontrar recusa nas suas súplicas11. Antes de S. Bernardo, já Santo Efrém tinha dito igualmente: Toda a nossa confiança está em vós, ó Virgem puríssima12. E Sto. Ildefonso: Todos os bens que a divina Majestade resolveu conceder-nos, quis depositá-los nas vossas mãos; sim, confiou-vos todos os seus tesouros e todas as jóias das suas graças13. S. Pedro Damião tem a mesma linguagem: Nas vossas mãos estão os tesouros das misericórdias do Senhor14.
E S. Bernardino de Sena: Sois vós a dispensadora de todas as graças; em vossas mãos está a nossa salvação15. Tal foi também o sentir de S. João Damasceno, S. Germano, Sto. Anselmo, Sto. Antonino, Idiota, e muitos outros autores graves, como Segneri, Paciucchelli, Crasset, Vega, Mendozza etc., com o sábio Pe. Natal Alexandre, que se exprime assim: Quer Deus que esperemos dele todos os bens pela intercessão poderosíssima da Virgem Maria, contanto que a invoquemos como convém16. O mesmo escreveu o Pe.Contenson, ao explicar as palavras que Jesus Cristo dirigiu no alto da cruz a S. João: Ecce Mater tua. Eis como ele comenta este texto: É como se dissera: Ninguém terá parte nos merecimentos do meu sangue, senão por intercessão da minha Mãe. São as minhas chagas as fontes das graças, mas elas não correm sobre ninguém, senão pelo canal de Maria. João, meu discípulo, tu serás amado de mim na medida em que a amares17.
Se todos devem ser devotos da Mãe de Deus, em razão da necessidade moral da sua intercessão, mais instante é esse dever para os padres que, tendo de cumprir grandes obrigações, carecem de graças mais abundantes para se salvarem. Nós padres deveríamos permanecer continuamente aos pés de Maria, a implorar o seu socorro. S. Francisco de Borja temia muito pela perseverança e salvação das pessoas, que não consagravam uma devoção especial à santíssima Virgem; porque, segundo a expressão de Sto. Antonino, quem pretende obter as graças, sem a intercessão de Maria, tenta voar sem asas18. E Sto. Anselmo chega a dizer, dirigindo-se a ela: Todo aquele que vos abandona, perecerá necessariamente19. S. Boaventura assegura a mesma coisa: Quem negligenciar honrá-la, morrerá nos seus pecados 20. O bem-aventurado Alberto Magno: Quem vos não servir perecerá21. Finalmente, Ricardo de S. Lourenço diz também, falando de Maria: O mar do mundo engolirá todos aqueles que não se refugiarem nesta arca22. Ao contrário, o servo fiel da santíssima Virgem certamente se salvará. “Sim, ó Mãe de Deus!exclamava S. João Damasceno, se eu puser a minha confiança em vós, serei salvo; desde que esteja sob a vossa proteção, nada terei a temer; porque os vossos servos têm armas que asseguram a vitória, armas que Deus só concede aos que quer salvar”23.

II - Confiança que se deve ter na intercessão da mãe de Deus

Vejamos agora a confiança que devemos ter na intercessão de Maria, considerando o seu poder e a sua bondade misericordiosa.

I. Quanto ao seu poder, Cosme de Jerusalém chamava à intercessão da nossa Rainha, não só poderosa, mas onipotente24. E Ricardo de S. Lourenço diz: O Filho onipotente comunicou a sua onipotência a sua Mãe25. O Filho é onipotente por natureza, e a Mãe por graça; porque ela obtém de Deus tudo quanto pede, e isto por duas razões: a primeira é que ela excede todas as criaturas em fidelidade e amor para com Deus; o que faz, como diz o Pe.Soares, que o Senhor ame mais a Maria, que a todos os bem-aventurados juntos. Um dia Sta. Brígida ouviu Jesus dizer a sua Mãe: Minha Mãe, pedi-me o que quiserdes, porque nenhuma das vossas súplicas pode ficar sem efeito.Depois ajunta: Assim como nada me recusastes na terra, também eu nada vos recusarei no Céu26. A segunda razão é que ela é Mãe. Diz Sto. Antonino que as súplicas de Maria têm o caráter dum mandamento, porque são as orações duma Mãe, e assim é impossível que ela não seja ouvida27.
Daí estas palavras que lhe endereça S. Germano: “Ó minha Soberana! Vós sois onipotente para salvardes os pecadores, não necessitais de nenhuma recomendação junto de Deus, porque sois a sua Mãe”28. S. Jorge de Nicomédia acrescenta que é de certo modo em desempenho das suas obrigações para com Maria, de quem recebeu a vida humana, que Jesus Cristo lhe concede tudo quanto ela pede29. Eis por que S. Pedro Damião, admirando igualmente a autoridade desta augusta Rainha, quando quer obter de meu Filho alguma graça para seus piedosos servos, não teme dizer-lhe: Aproximais-vos desse Altar, em que se opera a reconciliação dos homens, não só pedindo, mas mandando na qualidade de Rainha e não de serva, porque o vosso Filho vos honra, nada vos recusando30.
Ainda Maria estava na terra e já gozava do privilégio de ver todas as suas súplicas ouvidas pelo seu divino Filho. Nas bodas de Caná, desejando que ele provesse à falta de vinho, contentou-se com lhe dizer: Não têm vinho.Mas Jesus Cristo respondeu-lhe: Quid mihi et tibi est, mulier? nondum venit hora mea (Jo 2, 3). Podia parecer que, respondendo assim, lhe recusava a graça desejada, não deixou contudo de se render à súplica da sua Mãe, como observa S. João Crisóstomo31.
As preces de Maria, diz S. Germano, obtém graças insignes, até aos maiores pecadores, porque as sustenta a autoridade materna32. Numa palavra, não há homem, por ímpio que seja, que Maria não salve por sua intercessão, quando lhe apraz. É a razão da linguagem de S. Jorge de Nicomédia: Tendes um poder inexcedível: por numerosos que sejam os pecados, não vencem a vossa clemência. Nada resiste ao vosso poder, porque o Criador olha como própria a vossa glória33. Nada vos é impossível, ó minha Rainha, exclama S. Pedro Damião, pois até os desesperados podeis socorrer e salvar 34.

II. Tanto Maria é poderosa para nos salvar pela sua intercessão, como é misericordiosa para conosco e interessada na nossa salvação. É o que nota S. Bernardo35. É chamada Mãe de misericórdia, porque a sua terna bondade para conosco faz que nos ame e socorra, como uma mãe ama e socorre seu filho doente. Segundo o Pe. Nieremberg36, o amor de todas as mães reunidas não iguala o de Maria, por um só de seus servos que a ela se recomenda.Por isso é comparada à bela oliveira na amplidão dos campos37. Dos campos, comenta o cardeal Hugues, para que todos venham e se refugiem junto dela38. E assim como a oliveira, dá o azeite, símbolo da misericórdia, a quem a preme, assim Maria derrama as suas misericórdias sobre quem recorre a ela.
O bem-aventurado Amadeu e S. Beda afirmam que a nossa Rainha, no Céu, está sempre ocupada a orar por nós39. Ai! exclama S. Bernardo, o que é que poderia brotar duma fonte de misericórdia senão misericórdia?40 Um dia ouviu Sta. Brígida que o nosso Salvador dizia a sua Mãe: Mater, pete quod vis a me. E Maria respondeu: Misericordiam pelo miseris41. É como se tivesse dito: Meu Filho, visto que me constituístes Mãe de Misericórdia, — que posso eu pedir-vos senão que useis de misericórdia com os miseráveis pecadores? — A caridade imensa de que está abrasado o coração de Maria para com todos os homens, diz S. Bernardo, como que a obriga a difundir por todos a sua misericórdia 42.
Dizia S. Boaventura que, em presença de Maria, lhe parecia perder de vista a terrível justiça de Deus, e ver apenas a misericórdia divina, que o Senhor deposita nas mãos desta boa Mãe, para socorrer os miseráveis43. E, segundo S. Leão, tão cheia de misericórdia é ela, que deve ser chamada a própria misericórdia44. De fato, ó Mãe de misericórdia, exclama S.Germano, — quem, depois de Jesus Cristo, tem como vós tanto cuidado da nossa felicidade? Quem como vós nos socorre das nossas aflições? Quem se interessa assim pelos pecadores? Não nos é dado compreender em toda a sua extensão a vossa solicitude para conosco45. Ao falar também de Maria, Sto. Agostinho exprime-se assim: Sabemos, ó Maria, que o vosso interesse pelo bem da santa Igreja excede ao de todos os santos juntos46. É como se dissera: Ó Mãe de Deus! É bem verdade que os santos desejam a nossa salvação, mas o zelo que pondes em nos assistirdes do alto dos céus, o amor que nos mostrais em nos obterdes sem cessar tantas graças que sobre nós espalhais a mãos cheias, — obriga-nos a confessar que só vós amais verdadeiramente, e só vós sois em verdade cheia de solicitude pelo nosso bem. — E S. Germano ajunta: Maria intercede sempre por nós, reiterando de contínuo as suas instâncias, de modo que jamais se sacia de tomar a nossa defesa47.
Segundo Bernardino de Bustis48, com mais ardor deseja Maria dispensar-nos as graças, do que nós recebê-las. O mesmo autor ajunta esta reflexão: Assim como o demônio procura sempre dar a morte a quantos pode, como S. Pedro nos adverte, assim Maria procura sempre salvar quantos desgraçados possa. Agora pergunto: Quem é que recebe os benefícios de Maria? — e respondo: Quem os quer. — Basta pedir as graças a Maria, dizia uma santa alma, para as receber Guilherme de Paris contentava-se com suplicar à bem-aventurada Virgem que orasse por ele, tendo confiança que ela lhe obteria graças mais abundantes, do que as que ele tivesse ousado pedir-lhe49. Porque razão há tantas pessoas que não recebem graças de Maria? Porque não as querem. Quem se acha escravizado por alguma paixão, — de interesse, ambição, ou impureza — não deseja ser libertado, e por conseqüência não faz oração; se pedisse a sua salvação a Maria, havia de obtê-la. Mas, desgraçado — disse a mesma ditosa Virgem a Sta. Brígida — desgraçado aquele que, podendo recorrer a mim nesta vida, permanece por sua culpa sepultado no abismo do pecado50. Tempo virá em que queira e não possa.
Ai! Não nos exponhamos a um tal perigo; recorramos sempre a esta divina Mãe, que a ninguém despede descontente, conforme as palavras que o devoto Lansperge põe na boca de N. Senhor: Eu a fiz tão terna, que ela não pode deixar ninguém sem consolação51. Quem a invoca sempre a encontra disposta a prestar-lhe auxílio, diz Ricardo de S. Lourenço52. Ainda mais, segundo Ricardo de S. Vítor53, a terna bondade de Maria previne as nossas súplicas, e assiste-nos ainda antes de termos implorado o seu auxílio. E isso provém, ajunta o mesmo autor, de Maria ser tão misericordiosa, que não pode ver as nossas misérias sem nos socorrer 54.
Quem houve já, exclama Inocêncio III, que recorresse a Maria e não fosse ouvido?55 Quem implorou já a sua assistência, diz também o beato Eutiquiano, e foi dela abandonado?56 Ó Virgem, ajunta S. Bernardo, se alguém se lembrar de vos ter invocado, sem ser socorrido, consinto que esse deixe de louvar a vossa misericórdia57. Ó! por certo nunca tal se viu nem se verá; porque Maria, diz S. Boaventura, assim como não ignora as penas dos desgraçados e se compadece deles, também não pode deixar de os socorrer58.E o mesmo santo Doutor conclui daí que esta Mãe de misericórdia, — que tanto deseja socorrer-nos e ver-nos salvos — se dá por ofendida, não só quando lhe fazemos alguma injúria positiva, mas até quando nos descuidamos de lhe pedir as graças.
Recorramos pois a Maria e confiemos na sua misericórdia, por mais indignos que nos reconheçamos de ser ouvidos, em razão dos nossos pecados.A Sta. Brígida59 revelou o Senhor que o próprio Lúcifer se teria salvado por Maria, se esse espírito soberbo pudesse humilhar-se e implorar o seu socorro. Ouviu a santa que o nosso Salvador falava assim a sua Mãe: Etiam diabolo exhiberes misericordiam, si humiliter peteret. E a própria Virgem disse a Sta. Brígida que, quando um pecador vem a seus pés, não considera ela já os pecados de que está manchado, mas a intenção que os anima; se vem com a resolução de mudar de vida, cura-o e salva-o60. Também S. Boaventura chamava a Maria a salvação dos que a invocam61. Basta recorrer a Maria para ser salvo.

III - Prática de devoção à santíssima Virgem

Repito pois, recorramos sempre a esta augusta Mãe de Deus, rogando-lhe que nos proteja; mas, para melhor merecermos a sua proteção, tenhamos o cuidado de a honrar quanto possível. Um grande servo de Maria, o irmão João Berchmans, da Cia. de Jesus, estava em artigo de morte, quando os seus irmãos lhe perguntaram o que tinha a fazer para cativarem as boas graças desta poderosa Rainha.
Ele respondeu: Quidquid minimum, dummodo sit constans. Uma leve homenagem basta, para assegurar a proteção da Mãe de Deus; contenta-se com o mínimo dos nossos esforços, contanto que seja perseverante; porque é tão generosa, diz Sto. André de Creta, que recompensa habitualmente com graças abundantes as mais pequenas coisas que se façam em sua honra62. Quanto a nós, não nos devemos limitar a isso; ofereçamos-lhe ao menos todas as homenagens, que de ordinário lhe rendem os seus devotos servos: rezar o terço todos os dias, fazer as suas novenas, jejuar aos sábados, trazer o seu escapulário (ou a respectiva medalha), visitar diariamente alguma das suas imagens, pedindo-lhe qualquer graça especial, ler cada dia um pouco nalgum livro que trate dos seus louvores, saudá-la ao sair de casa e ao regressar, pôr-se na sua presença; de manhã ao levantar e à noite ao deitar, rezar três A. M. em honra da sua pureza.
Estas devoções sabem praticá-las os próprios leigos; mas nós, que somos padres, devemos levar mais longe as nossas homenagens à Mãe de Deus, pregando as suas glórias e levando os outros a honrá-la. A quem procurar neste mundo fazê-la conhecer a amar, promete ela a vida eterna63. O bem-aventurado bispo Heming começava todos os seus sermões pelos louvores de Maria; assim mereceu que ela dissesse um dia a Sta. Brígida: “Participai a esse prelado que eu quero servir-lhe de mãe, e à sua alma”64. Ó! quanto agradaria à santíssima Virgem o padre que todos os sábados, numa igreja ou capela, fizesse ao povo uma curta instrução sobre as prerrogativas desta terna Mãe, falando-lhe especialmente da sua misericórdia, e do desejo que tem de socorrer os que a invocam! Como diz S. Bernardo, a misericórdia de Maria é o mais poderoso atrativo para afeiçoar os povos ao seu culto. Ao menos, que o pregador tenha cuidado em todas as suas instruções, antes de terminar, de mover os fiéis a recorrer à bem-aventurada Virgem, pedindo-lhe alguma graça.
Em suma, quem honra a Maria, diz Ricardo de S. Lourenço, ajunta tesouros para a vida eterna65. Foi com este fim que há anos publiquei o meu livro — As Glórias de Maria. Dei-me a enriquecê-lo com passagens da Escritura e dos santos padres, exemplos e práticas de devoção, não só para oferecer a todos os fiéis assuntos de leitura, mas até para dum modo particular servirem aos padres, fornecendo-lhes matéria abundante para pregarem os louvores da Mãe de Deus, e inspirarem ao povo uma fervorosa devoção para com ela.

NOTA DO TRADUTOR PORTUGUÊS.
Temos presente uma edição francesa das Glória de Maria, em cujo prefácio encontramos o seguinte:
“O próprio Santo Afonso, sem o querer, fez a um tempo o elogio da sua obra e da sua virtude, numa ocasião tocante, que o Pe. Panzuti (Novenar. serm. 5) refere.
Quando já contava quase noventa anos, fazia-lhe a leitura espiritual o irmão que o servia. Um dia, arrebatado pelo que ouvia, e tendo a memória enfraquecida, perguntou-lhe por fim: ‘Meu irmão, quem foi que compôs esse belo livro, que está tão bem escrito? Que suavidade! Dizei-me: quem é o seu autor?’ O irmão, em resposta, leu lhe o título: ‘Glórias de Maria, por Afonso de Ligório’. A estas palavras, o venerando ancião ficou confuso e guardou silêncio. A sua humildade fôra colhida de surpresa”.
 
Notas:
1. Utrum debeamus Sanctos orare ad interpellandum pro nobis.
2. Ordo est divinitus institutus in rebus, secundum Dionysium, ut per media ultima reducantur in Deum. Unde, cum Sancti, qui sunt in patria, sint Deo propinquissimi, hoc divinae legis ordo requirit, ut nos, qui manentes in corpore peregrinamur a Domino, in eum per Sanctos medios reducamur. Sicut, mediantibus Sanctorum suffragiis, Dei beneficia in nos deveniunt, ita oportet nos in Deum reduci, ut iterato beneficia ejus sumamus mediantibus Sanctis (In 4. Sent. d. 45.q. 3. c. 2).
3. Lege naturali tenemur eum ordinem observare, quem Deus instituit; at constituit Deus ut inferiores ad salutem perveniant, implorato superiorum subsidio (De Relig. p. 2. c. 2. a. 5).
4. Magnum est enim in quolibet Sancto, quando habet tantum de gratia quod sufficit ad salutem multorum; sed, quando haberet tantum quod sufficeret ad salutem omnium, hoc esset maximum, et hoc est in Christo et in beata Virgine (Expos. in Sal. Ang.).
5. Per te accessum habeamus ad Filium, o Inventrix gratiae, Mater salutis, ut per te nos suscipiat, qui per te datus est nobis! (In Adv. Dom. s. 2).
6. Totius boni plenitudinem posuit (Deus) in Maria, ut proinde, si quid spei in nobis est, si quid gratiae, si quid salutis, ab ea noverimus redundare, quae ascendit deliciis affluens: hortus deliciarum, ut undique fluant et effluant aromata ejus, charismata scilicet gratiarum. Sic est voluntas ejus qui totum nos habere voluit per Mariam (De Aquoed.).
7. Qui me invenerit, inveniet vitam, et hauriet salutem a Domino (Prov. 8, 35).
8. In me gatia omnis viae et veritatis; in me omnis spes vitae et virtutis... Qui operantur in me, non peccabunt. qui elucidant me, vitam aeternam habebunt (Eccli. 24, 25).
9. Vita, Dulcedo, et Spes nostra.
10. Ad Mariam recurre; non dubius dixerim, exaudiet utique Matrem Filius. — Filioli, haec peccatorum scala, haec mea maxima fiducia est, haec tota ratio spei meae.
11. Quaeramus gratiam, et per Mariam quaeramus; quia quod quaerit, invenit, et frustrari non potest (De Aquaed).
12. Nobis non est alia quam a te fiducia, o Virgo sincerissima (De Laud. B. M. V.).
13. Omnia bona quae illic summa Majestas decrevit facere, tuis manibus voluit commendare; commissi quippe sunt tibi thesauri... et ornamenta gratiarum (De Cor. Virg. c. 15).
14. In manibus tuis sunt thesauri miserationum Domini (De Nativ. s. 1).
15. Tu dispensatrix omnium gratiarum; salus nostra in manu tua est.
16. Deus vult ut omnia bona ab ipso exspectemus potentissima Virginis Matris intercessione, cum eam, ut par est, invocamus, impetranda (Ep. 50 in calce Theol.).
17. Quasi diceret: Nullus sanguinis illius particeps erit, nisi intercessione Matris meae. Vulnera gratiarum fontes sunt; sed ad nullos derivabuntur rivi, nisi per Marianum canalem. Joannes discipule, tantum a me amaveris, quantum eam amaveris (Theol. ment. cord. t. 2. l. 10. d. 4. c. 1).
18. Sine alis tentat volare (P. 4. tit. 15. c. 22).
19. Omnis a te aversus necesse est ut intereat (Orat. 51).
20. Qui neglexerit illam, morietur in peccalis suis (Psalt. B. V. ps. 116).
21. Gens quae non servierit tibi, peribit (Bibl. Mar. Is. n. 20).
22. In mare mundi submerguntur omnes illi, quos non suscipit Navis ista (De Laud. B. M. l.11).
23. Crasset. (Vir. Dev. p. l. tr. l. q. 6).
24. Omnipotens auxilium tuum, o Maria! (Hymn. 6).
25. Ab omnipotente Filio omnipotens Mater est effecta (De Laud. B. M. l. 4).
26. Mater, pete quod vis a me; non enim inanis potest esse petitio tua. Quia tu mihi nihil negasti in terra, ego tibi nihil negabo in coelo (Rev. l. 6. c. 23 — l. 1. c. 24).
27. Oratio Deiparae habet rationem imperii; unde impossibile est eam non exaudiri (P. 4. t. 15.c. 17. § 4).
28. In. Dorm. B. V. s. 2.
29.Filius, quasi exsolvens debitum, petitiones tuas implet (Or. de Ingr. B. V.).
30. Accedis ante illud humanae reconciliationis Altare, nos solum rogans, sed imperans, Domina, non ancilla; nam Filius, nihil negans honorat te (In Nat. B. V. s. 1).
31. Et licet ita responderit, maternis tamen precibus obtemperavit (In Jo. hom. 21).
32. Tu autem, materna in Deum auctoritate pollens, etiam iis qui enormiter peccant, gratiam concilias; non enim potes non exaudiri, cum Deus tibi, ut verae et intemeratae Matri, in omnibus morem gerat (In Dorm. Deip. s. 2).
33. Habes vires insuparabiles, ne clementiam tuam superet multitudo peccatorum. Nihil tuae resistit potentiae; tuam enim gloriam Cretor existimat esse propriam (Or. de Ingr. B. V.).
34. Nil tibi impossibile, cut possibile est desperatos in spem beatitudinis relevare (De Nativit.B. V. s. 1).
35. Nec facultas ei deesse poterit, nec voluntas (In Assump. s. 1).
36. De Aff. erga B. V. c. 14.
37. Quasi oliva speciosa in campis (Eccli. 24, 19).
38. Ut omnes eam respiciant, omnes ad eam confugiant.
39. Adstat Beatissima Virgo vultui Conditoris, prece potentissima semper interpellans pro nobis. Stat Maria in conspectu Filii sui, non cessans pro peccatoribus exorare.
40. Quid de fonte pietatis procederet, nisi pietas? (Dom. 1. Epiph. s. 1).
41. Revel. 1. t. c. 23. — L. 1. 50.
42. Sapientibus et insipientibus copiosissima charitate debitricem se fecit; omnibus misericordiae sinum aperit, ut de plenitune ejus accipiant universi (In Sign. magn.).
43. Certe, Domina! cum te aspicio, nihil nisi misericordiam cerno; nam pro miseris Mater Dei facta es, et tibi miserendi est officium commissum (Stim. div. am. p. 3. c. 19).
44. Maria adeo praedita est misericordiae visceribus, ut, non tantum misericors, sed ipsa Misericordia dici promereatur.
45. Quis, post Filium tuum, curam gerit generis humani, sicut tu? Quis ita nos defendit in nostris afflictionibus? Quis pugnat pro peccatoribus? Propterea, patrocinium tuum majus est, quam comprehendi possit (De Zona Deip.).
46. Te solam, o Maria! Pro Sancta Ecclesia sollicitam prae omnibus Sanctis scimus (S. Bonav.Spec. B. V. lect. 6).
47. Non est satietas defensionis ejus (De Zona Deip.).
48. Plus desiderat ipsa facere tibi bonum et largiri gratiam, quam tu accipere concupiscas. — Ipsa semper circuit quaerens quem salvet (Marial. p. s. 5., — p. 3. s. 1).
49. Majori devotione orabis pro que, quam ego auderem petere; et majora etiam impetrabis mihi, quam petere praesumam (De Reth. div. c. 18).
50. Ideo miser erit, qui ad misericordiam, cum possit, non accedit! (Revel. l. 2. c. 23).
51. Adeo feci eam mitem, ut neminem a se redire tristem sinat (Allop. l. 1. p. 4. can. 12).
52. Semper paratam auxiliari (De Laud. B. M. l. 2. p. 1).
53. Velocius occurrit ejus pietas, quam invocetur, et causas miserorum anticipat.
54. A Deo pietate replentur ubera tua, ut, alicujus miseriae notitia tacta, lac fundant misericordiae, nec possis miserias scire et non subvenire (In Cant. c. 23).
55. Quis invocavit eam, et non est exauditus ab ipsa? (De Assump. s. 2).
56. Quis, o Domina! fideliter omnipotentem tuam rogavit opem, et fuit derelictus! revera nullus unquam (Surius, 4. febr. Vit. S. Theoph.).
57. Sileat misericordiam tuam, Virgo Beata, qui invocatam te in necessitatibus suis sibi meminerit defuisse (De Assump. s. 4).
58. Ipsa enim non misereri ignorat, et miseris non satisfacere nunquam scivit. — In te, Domina, peccant, non solum qui tibi injuriam irrogant, sed etiam qui te non rogant (Stim. am. p. 3 c. 13).
59. Revel. extr. c. 50.
60. Quantumcumque homo peccet, si ex vera emendatione ad me reversus fuerit, statim parata sum recipere revertentem; nec attendo quantum peccaverit, sed cum qua voluntate venit; nam non dedignor ejus plagas ungere et sanare, quia vocor (et vere sum) Mater misericordiae (Revel. l. 2. c. 23. — l. 6. c. 17).
61. O Salus te invocantium! (Cant. p. Psalt.).
62. Cum sit magnificentissima, solet maxima pro minimis reddere (In Dorm. B. V. s. 3).
63. Qui elucidant me, vitam aeternam habebunt (Eccli. 24, 31).
64. Revel. extr. c. 104.
65. Honorare Mariam, thesaurizare est sibi vitam aeternam (De Laud. B. M. l. 2. p. 1).

Fonte: Volta para Casa
PDF do livro: www.redemptor.com.br

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