Pesquisar neste blog

Carregando...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Católicos ingleses têm Missa gay...

Missa católica gay em Londres






Para quem ainda não sabe, toda semana é celebrada uma Missa católica que é chamada "gay friendly Mass", no bairro de Soho em Londres, Inglaterra. Trata-se, como eles dizem, de uma "Missa" aberta e acolhedora para com os homossexuais.

No vídeo do YouTube se pode perceber um distinto senhor com peruca e vestido de mulher que lê as orações dos fieis. Note (mais do que óbvia) a bandeira arco-íris.

Tudo isso ocorre com as bençãos do Arcebispo Vincent Nichols.

Diante desse fato nojento, uma pergunta não quer calar: ao invés de obrigar a FSSPX a assinar um Preâmbulo doutrinal sobre alguns pontos controvertidos do Concílio (pastoral) Vaticano II, não seria melhor fazer com que todos os "católicos" daquela igreja de Londres, incluído o sacerdote, e porque não também o Arcebispo Nichols, assinem um Preâmbulo doutrinal no qual se reafirme a doutrina católica de condenação do pecado de sodomia?

via Bregwin (Giorgio Roversi) 04/02/12
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Missa de sempre em prisão domiciliar!

O Rito latino usus antiquior está em "liberdade vigiada".


A Missa “antiga”, aquela que gostamos de chamar a “Missa de sempre”, foi, já faz quatro anos, liberalizada. Com um ato sem precedentes, o Santo Padre declarou que “nunca foi abolida”. Daquela declaração nasceu toda a nossa história. Resta um problema: esta liberdade é “vigiada”, e isto não faz sentido.

Sabemos bem que uma liberdade vigiada não reconhece o pleno valor daquilo que libera. Nas Dioceses, permanece uma mentalidade negativa ou desconfiada em relação ao rito tradicional. Pensa-se que este retorno ao rito antigo seja uma concessão, um indulto, um ato de bondade do Santo Padre em favor daqueles católicos, Sacerdotes e fieis, que ainda não se adaptaram à modernidade. Se o caso fosse esse, seria um falso indicar que a Missa tradicional nunca foi abolida!

Uma liberdade vigiada é vista sempre como um mal menor, como algo a ser suportado para evitar riscos maiores. Mas uma visão dessas não tem nada a ver com aquilo que o Papa reconheceu com o Motu Proprio Summorum Pontificum.

Todo sacerdote pode, sem pedir permissão a ninguém, celebrar segundo o Missal tradicional.

Esta afirmação parece ter ficado fechada entre as paredes das cúrias, por medo que “tal mal se difunda”. O rito tradicional deve, ao contrário, de modo salutar, influenciar positivamente toda a Igreja, que caiu em uma de suas crises mais assustadoras, talvez por causa de uma terrível crise litúrgica, como o próprio Cardeal Ratzinger afirmou anos atrás. Mas como pode influenciar positivamente a Igreja se continua em liberdade vigiada, restringida a uma “prisão domiciliar”? Do que se tem medo ainda?

Em quais seminários se ensina a Tradição litúrgica da Igreja aos clérigos?

Porque se continua a não ensinar a Missa tradicional aos seminaristas?

Porque, de fato, se proíbe a eles de assistir à Missa tradicional?

Há algo de tragicamente ridículo ao permitir que se assista aos ritos da Igreja oriental, ao convidar os padres ortodoxos e ao proibir a presença daqueles padres que abraçaram a Tradição. Se a Tradição litúrgica da Igreja latina é um valor, demo-la aos seminaristas para que um dia a dispensem aos fieis.

Igrejas são dadas às comunidades ortodoxas, separadas de Roma não apenas por insignificantes motivos disciplinares, mas por questões dogmáticas, mas não se concedem paróquias pessoais de rito tradicional, esperando que os fieis e os sacerdotes se cansem de pedi-las. Todo este jogo velado não é católico, não vem de um espírito de fé. Somos ecumênicos com todos, menos com o próprio passado que existe no presente.

Toda esta situação triste cria um doloroso bloqueio, que impede um verdadeiro trabalho apostólico.

Da Missa tradicional deve vir toda uma obra de edificação das almas, toda uma educação cristã, toda uma obra de santificação, da qual o mundo precisa urgentemente. A Missa tradicional existe pelo mesmo escopo pelo qual existe a Igreja: salvar as almas. Não faz sentido concedê-la para “entreter” os fieis, para dar-lhes uma emoção estética!

Não: a Missa tradicional existe para santificar os homens, para edificar a Igreja, para fazer renascer as paróquias, para reconstruir as escolas, para curar os doentes, para devolver a esperança aos aflitos... Em resumo, para fazer o Cristianismo. Não pode permanecer em “prisão domiciliar”.

Uma liberdade plena será também a melhor garantia para que, quem se aproxima da Tradição, não o faça por uma nostalgia vazia, mas pelo ímpeto de uma fé operosa.

Fonte: Chiesa e post concilio - 16/02/12 
Tradução: Giulia d'Amore di Ugento.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A firmeza doutrinal de Padre Pio

A FIRMEZA DOUTRINAL DE PADRE PIO

Publicado na revista
IESUS CHRISTUS, N. 64
1999.

São Pio de Pietrelcina
Este último ano de um século cada vez mais decadente viu, no mês de maio, a beatificação1 do Padre Pio, esse santo religioso que Deus enviou como um sinal para os nossos tempos. De fato, enquanto se quer nos fazer crer em uma nova Igreja 'carismática', não se encontram mais autênticos 'santos milagrosos' como aqueles que marcaram a história da Igreja desde o Pentecostes. Padre Pio parece terminar essa radiante procissão e de uma magnífica maneira: como o único sacerdote que trazia os estigmas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Muito tem sido escrito sobre Padre Pio – aparentemente, mais de 600 obras – e se tem insistido muito sobre o que tinha de extraordinário na sua vida: não só os seus inúmeros carismas (penetração de consciências, curas, ressurreições, bi-locações, êxtases, aromas, profecias etc.), mas também os incríveis sofrimentos que suportou desde sua mais tenra infância, as perseguições sofridas por parte de alguns homens de Igreja e até de confrades na religião. Tudo isso, sem esquecermos de suas duas principais obras de caridade: a fundação da 'Casa do Sofrimento' e dos 'Grupos de oração'.

Assim, é-nos apresentado o Padre Pio como um santo mais admirável que imitável, e – no final das contas – as lições mais interessantes desta vida correm o risco de nos escapar, junto com as aplicações práticas que poderiam transformar a nossa existência. Então, vamos tentar – mesmo que de forma imperfeita – destacar algumas, esperando saber tirar proveito delas, e pedindo que o Padre, lá do alto, nos assista fortemente, como prometeu a todos os que quisessem ser seus 'filhos espirituais'.

Grazio e Maria Forgione
os pais
O ponto de partida de uma vida totalmente sacrificada por Deus e pelas almas foi uma família piedosa e numerosa, onde a abnegação de cada um suavizava e transfigurava a áspera vida diária. Isto confirma aquela justa sentença de Mons. de Ségur, que dizia: "É nas famílias com ausência de espírito de sacrifício onde as vocações estão em risco de se perderem". Batizado no dia seguinte a seu nascimento – pelo que dará graças a Deus durante toda a sua vida – Padre Pio recebeu o nome de Francisco, prelúdio de sua vocação franciscana que se revelaria por ocasião da visita de um frade capuchinho, que ia mendigar o alimento para seu convento. Sua vocação não se decidiria sem esforço: "Sentia duas forças que se enfrentavam em mim, rasgando-me o coração: o mundo me queria para ele, e Deus me chamava para uma nova vida. Meu Deus! Como descrever o meu martírio? A simples lembrança da luta que se travava em mim me gela o sangue nas veias...". 

O jovem Padre Pio
Entrou no noviciado quando ainda não havia alcançado os dezesseis anos. Em cima da porta da clausura, para acolhê-lo, estava um sinal: "Ou a penitência, ou o inferno". A regra consistia de muitas orações, bastante trabalho e pouca leitura, limitando-se esta ao estudo da Regra e das Constituições.

O Irmão Pio logo veio a se destacar pela abundância de lágrimas que derramava durante a oração da manhã, a qual era consagrada pelos Capuchinhos à meditação sobre a Paixão, o que o obrigava a estender um pano diante de si, sobre o chão do Santuário. Tal como aconteceu com São Francisco, foi antes de tudo por essa amorosa e compassiva contemplação de Jesus crucificado que Padre Pio teve a graça de receber mais tarde os dolorosos estigmas em seu corpo. No entanto, como confiaria a seu diretor espiritual, frei Agostino, "as lutas espirituais, em comparação com as que sofro na minha carne, são muito superiores".

Os Estigmas
Parece que Deus espera que os justos expiem mais especialmente em si mesmos, por meio da tentação, os pecados públicos de seus contemporâneos. Na época em que a psicanálise que tudo desculpa ia ganhando mais e mais terreno, o Padre Pio – como a pequena Teresinha – teve que sofrer uma terrível crise de escrúpulos "quase insuportável" que o atormentou por três longos anos. Depois da tempestade, vem a noite. Noite da alma que durou várias décadas, cravejada com raras claridades: "vivo uma noite perpétua (...) tudo me perturba, e não sei se ajo bem ou mal. Não é um escrúpulo, eu sei: a incerteza de não saber se agrado ou não ao Senhor é o que me esmaga. E isso, em tudo e em todo lugar: no altar, no confessionário... em todo lugar".

Suas máximas devem ser meditadas pela perspectiva destas provas místicas: "O amor é mais bonito no temor, porque é assim que somos fortalecidos". Ou "Quanto mais se ama a Deus, menos se sente".

Santa Teresa do Menino Jesus se opôs ao presunçoso racionalismo de seu tempo por meio de sua espiritualidade inocente (Pequeno Caminho da Infância Espiritual), mas também através da expiação das terríveis tentações contra a Fé. Seu clamor: "Quero crer!", é bem conhecido. Padre Pio também experimentou violentas e prolongadas tentações contra a Fé, como o atestam as suas cartas ao Frei Agostino: "As blasfêmias me atravessam o espírito sem cessar, e, mais ainda, falsas ideias, ideias de infidelidade e de falta de Fé. Sinto a alma traspassada a cada momento da minha vida, sufoca-me... Minha Fé é todo um esforço de minha pobre vontade contra toda persuasão humana. Em suma, a minha Fé é o fruto de esforços contínuos que faço sobre mim mesmo. E tudo isso, Padre, não são poucas vezes ao dia, mas é algo continuo... Padre, quão difícil é crer!".

Jovem, já com os Estigmas
Que preciosas lições devem ser para nós, por exemplo, ser surpreendido e encontrar-se tentado a tal ponto.

Como Padre Pio suportou estas terríveis provações? Pondo em prática o que havia aprendido durante o seu noviciado: a perseverança na oração, a mortificação dos sentidos, uma firme fidelidade às obrigações de seu estado e, finalmente, uma perfeita obediência ao sacerdote encarregado de sua alma. Esta experiência, duramente adquirida, permitiu-lhe muito rapidamente atrair a si almas desejosas de perfeição e de ser exigente com elas.

A seus dirigidos ditava, desde o início, uma regra de cinco pontos: a confissão semanal, comunhão e leitura espiritual diárias, exame de consciência todas as noites, a oração mental duas vezes ao dia. Em relação ao Rosário, dizia que era muito necessário, e além disso, falava frequentemente: "A confissão é o banho da alma. Tem que fazê-la uma vez por semana, pelo menos! Se em um quarto bem limpo e vazio entramos depois de uma semana, veremos que nele há poeira, e necessita ser limpo novamente!".

A imagem diante da qual Padre Pio rezava
quando recebeu os estigmas
Àqueles que se declaravam indignos de comungar, o Padre Pio respondia: "Isso é muito certo, não somos dignos de tal dom. No entanto, aproximar-se do Santíssimo em estado de pecado mortal é uma coisa, e ser indigno dEle é algo completamente diferente. Todos nós somos indignos, mas é Ele quem nos convida. É Ele quem o quer. Humilhemo-nos e recebamo-lo com um coração contrito e cheio de amor".

Para outro que lhe dizia que o exame de consciência lhe parecia inútil, pois em cada uma de suas ações sua consciência lhe mostrava claramente se o que fazia era bom ou mau, ele objetava: "Muito bem dito, mas todo comerciante experiente deste mundo não se limita a controlar durante o dia se perdeu ou ganhou após cada venda. À noite faz um balanço de todo o dia para estabelecer o que deve ser feito no dia seguinte. Disto se segue que é indispensável fazer cada noite um rigoroso exame de consciência, breve, mas lúcido" (...) "O dano que produz nas almas a falta de leituras virtuosas me faz tremer de horror... Que força espiritual tem a leitura para levar a mudar o caminho, e para fazer entrar no caminho da perfeição até as pessoas mundanas!"

Quando Padre Pio foi condenado a não exercer qualquer ministério, ocupou o seu tempo livre, não lendo o jornal – "o evangelho do diabo" –, mas muitos livros de doutrina, história e espiritualidade. O que não o impediu de dizer: "Procuramos Deus nos livros, mas O encontramos através da oração".

Seus conselhos para a oração eram muito simples: "Se não consegue meditar bem, não deixe por isso de fazer seu dever. Se as distrações são muitas, não desanime, faça a meditação pacientemente e ainda assim será proveitosa. Determinem a duração da meditação, e não se levante até termina-la, mesmo que deva ser crucificado... Porque se inquieta tanto por não saber meditar corretamente? A meditação é um meio para alcançar Deus, não é um fim em si mesma. A meditação ajuda no amor de Deus e do próximo. Ame a Deus com toda a sua alegria e sem reservas, ame ao próximo como a si mesmo e terá realizado a metade de sua meditação".

Padre Pio e os fieis
clique para ampliar
O mesmo se pode dizer em relação ao Santo Sacrifício da Missa: deve consistir mais em atos (contrição, fé, amor) do que em reflexões ou considerações intelectuais. A quem lhe perguntava se era necessário seguir a Missa com o missal, o Padre Pio respondia que o missal era necessário apenas ao sacerdote. Para ele, a melhor maneira de assistir ao Santo Sacrifício era unir-se à Virgem Dolorosa, aos pés da Cruz, na contemplação e no amor. Somente no Paraíso – assegurava – compreendermos todos os benefícios que recebemos por assistir à Santa Missa.

Padre Pio, que era tão afável e agradável nas relações humanas, podia tornar-se duro e inflexível quando a honra de Deus estava em jogo, especialmente na igreja: "O murmúrio dos fiéis era interrompido pelo Padre, que fulminava com o olhar a qualquer um que não observasse uma atitude de oração... Se alguém permanecia de pé, mesmo que fosse apenas por falta de lugar, o convidava peremptoriamente a ajoelhar-se para participar dignamente do Santo Sacrifício da Missa".

Até mesmo o acólito mais distraído ouvia suas censura: "Menino, se você quer ir para o inferno, não precisa de minha permissão".

Ele também havia declarado guerra sem tréguas às modas do pós-guerra: "O Padre Pio, sentado em seu confessionário aberto, vigia o tempo todo para que as mulheres e jovens que iam se confessar com ele não usassem vestidos curtos (exigia que as saias escondessem os joelhos). Muitas vezes havia lágrimas: esperar tanto tempo para confessar e ser excluída por causa de uma saia muito curta!... Então, algumas boas almas se adiantavam para oferecer ajuda: em um canto se descostura uma bainha, ou se empresta um casaco. Então, o Padre, às vezes, aceita admitir as humilhada à confissão".

A seu diretor espiritual que um dia o repreendeu por essa sua conduta por vezes tão severa, ele respondeu: "Poderia obedecer-lhe, mas todas as vezes é Jesus quem me diz como devo tratar essas pessoas".

Tratava-se, portanto, de uma severidade inspirada de cima, unicamente para a honra de Deus e a salvação das almas: "Uma mulher que satisfaz sua vaidade em seus vestidos não poderá jamais revestir-se da vida de Jesus Cristo e perde todo o adorno da alma a partir do momento em que este ídolo entra em seu coração".

E que não lhe censurassem uma falta de caridade: "Rogo-lhe que não me reproves em nome da caridade, porque a maior caridade é aquela que liberta as almas das garras de Satanás, com o fim de ganha-las para Cristo".

Modelo de respeito e submissão aos seus superiores eclesiásticos e religiosos, especialmente quando foi perseguido, Padre Pio não poderia permanecer em silêncio diante dos desvios nefastos que estavam ocorrendo na Igreja. Antes mesmo do fim do Concílio, em fevereiro de 1965, alguém lhe informou que em breve deveria celebrar a Missa de acordo com um novo rito, ad experimentum, não mais em latim, elaborado por uma Comissão Conciliar Litúrgica para responder às aspirações do homem moderno. Antes mesmo de ter o texto diante de seus olhos, ele escreveu imediatamente a Paulo VI para pedir-lhe dispensa deste experimento litúrgico e para poder continuar celebrando unicamente a Missa de São Pio V. Diante do Cardeal Bacci, o enviado do Papa que havia se deslocado pessoalmente para levar esta autorização, Padre Pio deixou escapar uma queixa: "Por compaixão, encerrem rapidamente o Concílio".

Foi diante deste crucifixo, no coro superior da pequena igreja,
que o Pe. Pio associou-se à paixão de N. Senhor,
recebendo os Estigmas
No mesmo ano, no meio da euforia conciliar que prometia uma nova primavera para a Igreja e o mundo, o Padre confidenciava a um de seus filhos espirituais: "Rezemos nesta época de trevas. Façamos penitência pelos eleitos".

E o fez especialmente por aquele que é nosso pastor aqui na Terra: "Toda a sua vida foi uma imolação pelo Papa reinante, cuja fotografia estava entre as pequenas imagens que decoravam sua cela".

Há outras cenas muito significativas da vida de Padre Pio, por exemplo suas reações ao aggiornamento das ordens religiosas a partir do Vaticano II. As palavras que seguem fazem parte de um livro que contém um Imprimatur: "Em 1966, o Superior Geral (dos Franciscanos) veio de Roma antes de um Capítulo extraordinário sobre as Constituições, com o objetivo de pedir a Padre Pio suas orações e bênçãos. Reuniu-se com o Padre no claustro. 'Padre, vim para encomendar que em suas orações, lembres o Capítulo especial para as novas Constituições...'. Quando ouviu 'Capítulo especial' e 'novas Constituições', Padre Pio, com um violento gesto, disse em voz alta: 'Tudo isso não é senão bobagens e ruínas' — 'Mas Padre, afinal de contas, devemos considerar as gerações mais jovens... os jovens evoluíram a sua própria maneira... existem novas exigências...' — 'O que falta é a mente e o coração. Isto é tudo: inteligência e amor'. Então, dirigindo-se à sua cela, deu meia volta e se foi, apontando com um dedo e dizendo: 'Não devemos desfigurar-nos a nós mesmos, não devemos desfigurar-nos a nós mesmos! No dia do Juízo do Senhor, São Francisco não nos reconhecerá como seus filhos!".   

Um ano depois, a mesma cena em relação ao aggiornamento dos Capuchinhos: "Um dia, alguns confrades estavam discutindo com o Padre Definidor Geral sobre os problemas da Ordem, quando o Padre Pio, tomando uma atitude assombrosa, começou a gritar, fixando o seu olhar ao longe: 'Mas o que estão fazendo em Roma. O que estão aprontando? Estão mesmo empenhados em mudar a Regra de São Francisco!'. E o Definidor lhe disse: 'Padre, essas mudanças são propostas porque os jovens não querem mais saber da tonsura, do hábito, dos pés descalços...'. 'Expulsem-nos! Expulsem-nos! Mas o quê? São eles que fazem um favor a São Francisco tomando o hábito e seguindo seu modo de vida, ou é São Francisco que lhes oferece um grande presente?'."

Os calçados que ele usava
feitos sob medida por causa dos Estigmas

Se considerarmos que Padre Pio era um verdadeiro alter Christus, que toda a sua pessoa, corpo e alma, estava, tanto quanto possível, tão perfeitamente conforme à de Jesus Cristo – sua integral rejeição ao Novus Ordo e ao aggiornamento deve ser uma lição que devemos aprender – é também notável que o Bom Deus tenha querido chamar o seu servo fiel justamente antes da imposição implacável do Novus Ordo na Igreja e na Ordem dos Capuchinhos. É também notável que Katharina Tangari, uma de suas mais privilegiadas filhas espirituais, tenha apoiado tão admiravelmente os sacerdotes de Ecône, até à sua morte, um ano após as sagrações de 1988.

A benção final da Missa que
Padre Pio nunca deixou de rezar:
a Missa de sempre
a Missa de Pio V
Padre Pio era ainda menos complacente com a ordem – ou melhor, com a desordem – social e política e em 1966 diria: "Confusão de ideias e reino de ladrões".
E profetizou que os comunistas tomariam o poder "de surpresa, sem disparar uma só bala... Acontecerá na calada da noite".

Isto não deve nos surpreender, já que as ordens de Nossa Senhora de Fátima não foram ouvidas. Inclusive, disse a Mons. Piccinelli que a bandeira vermelha ondejaria sobre o Vaticano, "mas que seria passageiro", e sua conclusão aqui novamente coincide com a da Rainha dos Profetas: "Mas, por fim, o meu Coração Imaculado triunfará". Como? Pela onipotência divina, certamente, mas provocada pelas duas grandes forças do homem: a oração e a penitência. É a grande lição que Nossa Senhora quis nos lembrar insistentemente no início do século XX: Deus quer salvar o mundo pela devoção ao Imaculado Coração de Maria, e não há problema, material ou espiritual, nacional ou internacional, que não possa ser resolvido por meio do Santo Rosário e dos nossos sacrifícios.

Esta, sem dúvidas, é também a última lição que Padre Pio quis que aprendêssemos com seu exemplo e, sobretudo, através de seus "grupos de oração" que estabeleceu por todo o mundo.

"Ele nunca abandonava o Rosário, inclusive tinha um debaixo de seu travesseiro. Rezava várias dezenas de Rosários por dia".

Poucas horas antes de expirar, como lhe pediam para dizer suas últimas palavras, o que se ouviu foi isto: "Amem a Santíssima Virgem e façam que a amem. Rezem sempre o Rosário!". 

A próxima glorificação do Venerável Padre Pio certamente vai despertar em muitas almas a curiosidades e a admiração por ele. Aproveitamos esta oportunidade para recordarmos a todos estas lições e, é claro, para que as ponhamos em prática em nossa própria vida, no amor misericordioso dos Santíssimos Corações de Jesus e Maria.


Irmão João

(Da "Carta aos Amigos do São Francisco", do Convento de Morgon, França).

 
Tradução: Pale Ideas.

IMAGENS

279 Fotos e imagens de Padre Pio


[1] NdTª.: O processo que levou à sua canonização teve início com o nihil obstat de 29 de novembro de 1982. Em 20 de março de 1993, foi começado o processo diocesano para sua canonização. Em 21 de janeiro de 1990, o Papa João Paulo II o proclamou 'venerável'; em 2 de maio de 1999, Beato; e, em 16 de junho de 2002, na Praça de São Pedro, Santo, com o nome de São Pio de Pietrelcina. A sua festa litúrgica é celebrada dia 23 de setembro.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

QUARESMA: CALENDÁRIO PERMANENTE DE PENITÊNCIAS

Editado aos 18 de fevereiro de 2015, para atualizar as datas; as sugestões permanecem as mesmas. 

 

CALENDÁRIO PERMANENTE DE PENITÊNCIAS QUARESMAIS 2015




CRISTO NO DESERTO
Ivan Nikolaevich Kramskoy (1837–1887)
CLIQUE PARA AMPLIAR

Começo por deixar exemplos de coisas – simples, corriqueiras – que podem nos ajudar a melhor nos prepararmos, durante este tempo quaresmal, para a celebração da Semana Santa:
.
•    Desligar a televisão
•    Desligar o SKY/FACEBOOK/WHATSAPP etc.
•    Desligar o som do carro na volta pra casa, e aproveitar o silêncio para meditar os Novíssimos (aqui ou aqui) ou para rezar o terço.
•    Cortar o refrigerante das refeições.

•    Deixar de comer doces
•    Não consumir bebidas alcoólicas
•    Não ir à boate, à festa, ao cinema (isto para o católico deveria ser REGRA)
•    Fazer uma hora de silêncio durante o trabalho
•    Não tomar o analgésico para a dor de cabeça
•    Visitar um hospital
•    Deixar de fazer o comentário espirituoso que iria provocar gargalhadas
•    Sorrir mais, gargalhar menos
•    Falar aos outros sobre a importância da penitência durante a Quaresma
•    Trocar a coca-cola gelada, no calor, por um copo d’água
•    Visitar parentes que não se vê há tempos
•    Rezar (pelo menos) um terço a mais
•    Calçar o sapato desconfortável
•    Dar de comer a quem tem fome
•    Lavar os pratos, a roupa, o banheiro, no lugar de alguém
•    Ler um livro piedoso
•    Em suma, reclamar menos, rezar mais


Comunicado



Durante a Quaresma, este Blog continuará em semi-recesso. Antes de alimentar os outros, preciso me alimentar, portanto aproveitarei o período quaresmal para cuidar de minha Salvação particular.

Serão publicados, esporadicamente, materiais de utilidade comum e notícias necessárias.

O Blog voltará à rotina normal depois da Semana Santa.

Até lá, fiquemos juntos em oração.

Giulia d'Amore di Ugento


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quarta-Feira de Cinzas: começa a Quaresma


Sermão da Quarta-feira de Cinzas
Pe. Antonio Viera
 Em Roma, na Igreja de S. Antônio dos Portugueses.
Ano de 1670.

Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris [1].

I
O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade? A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso.

Pulvis es, tu in pulverem reverteris...
Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter. — Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura. O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem-no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança. Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó. Vamos, para maior exemplo e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder-vos-ão os epitáfios, que só as distinguem: Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, e este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente. De sorte que para eu crer que hei de ser pó, não é necessário fé, nem entendimento, basta a vista. Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es? Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário? É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó: Pulvis es? Argumento à Igreja com a mesma Igreja: Memento homo. A Igreja diz-me, e supõe que sou homem: logo não sou pó. O homem é uma substância vivente, sensitiva, racional. O pó vive? Não. Pois como é pó o vivente? O pó sente? Não. Pois como é pó o sensitivo? O pó entende e discorre? Não. Pois como é pó o racional? Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou pó: Quia pulvis es? Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida. Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso. Para que eu acerte a declarar esta dificultosa verdade, e todos nós saibamos aproveitar deste tão importante desengano, peçamos àquela Senhora, que só foi exceção deste pó, se digne de nos alcançar graça.
Ave Maria. 
II
O homem foi pó e há de ser pó, logo é pó, pois tudo o que vive não é o que é, é o que foi e o que há de ser. O exemplo da vara de Arão que se converte em serpente. Deus se definiu a Moisés como aquele que é o que é, porque só ele é o que foi e o que há de ser. Se alguém puder afirmar o mesmo de si próprio também é digno de ser adorado.

Memento homo!
Enfim, senhores, não só havemos de ser pó, mas já somos pó: Pulvis es. Todos os embargos que se podiam pôr contra esta sentença universal são os que ouvistes. Porém como ela foi pronunciada definitiva e declaradamente por Deus ao primeiro homem e a todos seus descendestes, nem admite interpretação nem pode ter dúvida. Mas como pode ser? Como pode ser que eu que o digo, vós que o ouvis, e todos os que vivemos sejamos já pó: Pulvis es? A razão é esta. O homem, em qualquer estado que esteja, é certo que foi pó, e há de tornar a ser pó. Foi pó, e há de tornar a ser pó? Logo é pó. Porque tudo o que vive nesta vida, não é o que é: é o que foi e o que há de ser. Ora vede.
No dia aprazado em que Moisés e os magos do Egito haviam de fazer prova e ostentação de seus poderes diante do rei Faraó, Moisés estava só com Arão de uma parte, e todos os magos da outra. Deu sinal o rei, mandou Moisés a Arão que lançasse a sua vara em terra, e converteu-se subitamente em uma serpente viva e tão temerosa, como aquela de que o mesmo Moisés no deserto se não dava por seguro. Fizeram todos os magos o mesmo: começam a saltar e a ferver serpentes, porém a de Moisés investiu e avançou a todas elas intrépida e senhorilmente, e assim, vivas como estavam, sem matar nem despedaçar, comeu e engoliu a todas. Refere o caso a Escritura, e diz estas palavras: Devoravit virga Aaron virgas eorum: a vara de Arão comeu e engoliu as dos egípcios (Ex 7, 12) — Parece que não havia de dizer: a vara, senão: a serpente. A vara não tinha boca para comer, nem dentes para mastigar, nem garganta para engolir, nem estômago para recolher tanta multidão de serpentes. A serpente, em que a vara se converteu, sim, porque era um dragão vivo, voraz e terrível, capaz de tamanha batalha e de tanta façanha. Pois, por que diz o texto que a vara foi a que fez tudo isto, e não a serpente? Porque cada um é o que foi e o que há de ser. A vara de Moisés, antes de ser serpente, foi vara, e depois de ser serpente, tornou a ser vara; a serpente que foi vara e há de tornar a ser vara não é serpente, é vara: Virga Aaron. É verdade que a serpente naquele tempo estava viva, e andava, e comia, e batalhava, e vencia, e triunfava, mas como tinha sido vara, e havia de tornar a ser vara, não era o que era: era o que fora e o que havia de ser: Virga.
Ah! serpentes astutas do mundo vivas, e tão vivas! Não vos fieis da vossa vida nem da vossa viveza; não sois o que cuidais nem o que sois: sois o que fostes e o que haveis de ser. Por mais que vós vejais agora um dragão coroado e vestido de armas douradas, com a cauda levantada e retorcida açoitando os ventos, o peito inchado, as asas estendidas, o colo encrespado e soberbo, a boca aberta, dentes agudos, língua trifulca, olhos cintilantes, garras e unhas rompentes, por mais que se veja esse dragão já tremular na bandeira dos lacedemônios, já passear nos jardins das hespérides, já guardar os tesouros de Midas, ou seja dragão volante entre os meteoros, ou dragão de estrelas entre as constelações, ou dragão de divindade afetada entre as hierarquias, se foi vara, e há de ser vara, é vara; se foi terra, e há de ser terra, é terra; se foi nada, e há de ser nada, é nada, porque tudo o que vive neste mundo é o que foi e o que há de ser. Só Deus é o que é, mas por isso mesmo. Por isso mesmo. Notai.
Apareceu Deus ao mesmo Moisés nos desertos de Madiã; manda-o que leve a nova da liberdade ao povo cativo, e perguntando Moisés quem havia de dizer que o mandava, pare que lhe dessem crédito, respondeu Deus e definiu-se: Ego sum qui sum: Eu sou o que sou (Ex 3, 14). Dirás que o que é te manda: Qui est misit me ad vos? Qui est? O que é? E que nome, ou que distinção é esta? Também Moisés é o que é, também Faraó é o que é, também o povo, com que há de falar, é o que é. Pois se este nome e esta definição toca a todos e a tudo, como a toma Deus só por sua? E se todos são o que são, e cada um é o que é, por que diz Deus não só como atributo, senão como essência própria da sua divindade: Ego sum qui sum: Eu sou o que sou? Excelentemente S. Jerônimo, respondendo com as palavras do Apocalipse: Qui est, et qui erat, et qui venturus est [2], Sabeis por que diz Deus: Ego sum qui sum? Sabeis por que só Deus é o que é? Porque só Deus é o que foi e o que há de ser. Deus é Deus, e foi Deus, e há de ser Deus; e só quem é o que foi e o que há de ser. é o que é. Qui est, et qui erat, et qui venturus est. Ego sum qui sum. De maneira que quem é o que foi e o que há de ser, é o que é, e este é só Deus. Quem não é o que foi e o que há de ser, não é o que é: é o que foi e o que há de ser: e esses somos nós. Olhemos para trás: que é o que fomos? Pó. Olhemos para diante: que é o que havemos de ser? Pó. Fomos pó e havemos de ser pó? Pois isso é o que somos: Pulvis es.
Eu bem sei que também há deuses da terra, e que esta terra onde estamos foi a pátria comum de todos os deuses, ou próprios, ou estrangeiros. Aqueles deuses eram de diversos metais; estes são de barro, ou cru ou mal cozido, mas deuses. Deuses na grandeza, deuses na majestade, deuses no poder, deuses na adoração, e também deuses no nome: Ego dixi, dii estis. Mas se houver, que pode haver, se houver algum destes deuses que cuide ou diga: Ego sum qui sum, olhe primeiro o que foi e o que há de ser. Se foi Deus, e há de ser Deus, é Deus: eu o creio e o adoro; mas se não foi Deus, nem há de ser Deus, se foi pó, e há de ser pó, faça mais caso da sua sepultura que da sua divindade. Assim lho disse e os desenganou o mesmo Deus que lhes chamou deuses: Ego dixi, dii estis. Vos autem sicut homines moriemini [3]. Quem foi pó e há de ser pó, seja o que quiser e quanto quiser, é pó: Pulvis es.

III
define-se como quem foi pó e há de ser pó: Abraão define-se como quem é pó. O texto sagrado não diz: converter-vos-eis em pó mas tornareis a ser pó. O que chamamos vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó. 
Sinal
Parece-me que tenho provado a minha razão e a conseqüência dela. Se a quereis ver praticada em próprios termos, sou contente. Praticaram este desengano dois homens que sabiam mais de nós que nós: Abraão e , com outro memento como o nosso, dizia a Deus: Memento quaeso, quod sicuit lutum feceris me, et in pulverem deduces me: Lembrai-vos, Senhor, que me fizestes de pó, e que em pó me haveis de tornar ( 10, 9). — Abraão, pedindo licença ou atrevimento para falar a Deus: Loquar ad Dominum, cum sim pulvis et cinis: Falar-vos-ei , Senhor, ainda que sou pó e cinza (Gn 18, 27). — Já vedes a diferença dos termos que não pode ser maior, nem também mais natural ao nosso intento. diz que foi pó e há de ser pó; Abraão não diz que foi, nem que há de ser, senão que já é pó: Cum sim pulvis et cinis. Se um destes homens fora morto e outro vivo, falavam muito propriamente, porque todo o vivo pode dizer: Eu fui pó, e hei de ser pó; e um morto, se falar, havia de dizer: Eu já sou pó. Mas Abraão que disse isto, não estava morto, senão vivo, como ; e Abraão e não eram de diferente metal, nem de diferente natureza. Pois se ambos eram da mesma natureza, e ambos estavam vivos, como diz um que já é pó, e outro não diz que o é, senão que o foi e que o há de ser? Por isso mesmo. Porque foi pó e há de ser pó, por isso Abraão é pó. Em falou a morte, em Abraão falou a vida, em ambos a natureza. Um descreveu-se pelo passado e pelo futuro, o outro definiu-se pelo presente; um reconheceu o efeito, o outro considerou a causa; um disse o que era, o outro declarou o porquê. Porque e Abraão e qualquer outro homem foi pó, por isso já é pó. Fôstes pó e haveis de ser pó como ? Pois já sois pó como Abraão: Cum sim pulvis et cinis.
Tudo temos no nosso texto, se bem se considera, porque as segundas palavras dele não só contêm a declaração, senão também a razão das primeiras. Pulvis es: sois pó. E por que? Porque in pulverem reverteris: porque fostes pó e haveis de tornar a ser pó. Esta é a forca da palavra reverteris, a qual não só significa o pó que havemos de ser, senão também o pó que somos. Por isso não diz: converteris, converter-vos-eis em pó, senão: reverteris, tornareis a ser o pó que fostes. Quando dizemos que os mortos se convertem em pó, falamos impropriamente, porque aquilo não é conversão, é reversão: reverteris. É tornar a ser na morte o pó que somos no nascimento; é tornar a ser na sepultura o pó que somos no campo damasceno. E porque somos pó e havemos de tornar a ser pó: In pulverem reverteris, por isso já somos pó: Pulvis es. — Não é exposição minha, senão formalidade do mesmo texto, com que Deus pronunciou a sentença de morte contra Adão: Donec revertaris in terram de qua sumptus es: quia pulvis es (Gn 3, 19): — Até que tornes a ser a terra de que fostes formado, porque és pó.— De maneira que a razão e o porquê de sermos pó: Quia pulvis es, é porque somos pó, e havemos de tornar a ser pó: Donec revertaris in terram de qua sumptus es.
Só parece que se pode opor ou dizer em contrário, que aquele donec: até que, significa tempo em meio entre o pó que somos e o pó que havemos de ser, e que neste meio tempo não somos pó. Mas a mesma verdade divina que disse: donec, disse também: pulvis es. E a razão desta conseqüência está no revertaris, porque a reversão com que tornamos a ser o pó que fomos começa circularmente, não do último senão do primeiro ponto da vida. Notai. Esta nossa chamada vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó: do pó que fomos ao pó que havemos de ser. Uns fazem o círculo maior, outros menor, outros mais pequeno, outros mínimo: De utero translatus ad tumulum [4] Mas, ou o caminho seja largo, ou breve, ou brevíssimo, como é círculo de pó a pó, sempre e em qualquer parte da vida somos pó. Quem vai circularmente de um ponto para o mesmo ponto, quanto mais se aparta dele tanto mais se chega para ele; e quem quanto mais se aparta mais se chega, não se aparta. O pó que foi nosso princípio, esse mesmo, e não outro, é o nosso fim, e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó, quanto mais parece que nos apartamos dele, tanto mais nos chegamos para ele; o passo que nos aparta, esse mesmo nos chega; o dia que faz a vida, esse mesmo a desfaz. E como esta roda que anda e desanda juntamente sempre nos vai moendo, sempre somos pó. Por isso, quando Deus intimou a Adão a reversão ou resolução deste círculo: Donec revertaris, das premissas: pó foste, e pó serás, — tirou por conseqüência: pó és: Quia pulvis es. Assim que desde o primeiro instante da vida até o último nos devemos persuadir e assentar conosco, que não só somos e havemos de ser pó, senão que já o somos, e por isso mesmo. Foste pó e hás de ser pó? És pó: Pulvis es.

IV
Se já somos pó, qual a diferença existente entre vivos e mortos? Os vivos são o pó levantado pelo vento, os mortos são o pó caído. Adão, feito de pó, recebendo o vento do sopro divino torna-se vivo. Nas Escrituras, levantar é viver, cair é morrer. Assim, como distingue Davi, há o pó da morte e o pó da vida. 
Imposição das cinzas
Ora, suposto que já somos pó, e não pode deixar de ser, pois Deus o disse, perguntar-me-eis e com muita razão, em que nos distinguimos logo os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós também somos pó: em que nos distinguimos uns dos outros? Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído: os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz: Hic jacet. Estão essas praças no verão cobertas de pó; dá um pé-de-vento, levanta-se o pó no ar, e que faz? O que fazem os vivos, e muitos vivos. Não aquieta o pó, nem pode estar quedo: anda, corre, voa, entra por esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo cega, tudo penetra, em tudo e por tudo se mete, sem aquietar, nem sossegar um momento, enquanto o vento dura. Acalmou o vento, cai o pó, e onde o vento parou, ali fica, ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha. Não é assim? Assim é. E que pó, e que vento é este? O pó somos nós: Quia pulvis es; o vento é a nossa vida: Quia ventus es vita mea ( 7, 7). Deu o vento, levantou-se o pó; parou o vento, caiu. Deu o vento, eis o pó levantado: esses são os vivos. Parou o vento, eis o pó caído: estes são os mortos. Os vivos pó, os mortos pó; os vivos pó levantado, os mortos pó caído; os vivos pó com vento, e por isso vãos; os mortos pó sem vento, e por isso sem vaidade. Esta é a distinção, e não há outra.
Nem cuide alguém que é isto metáfora ou comparação, senão realidade experimentada e certa. Forma Deus de pó aquela primeira estátua, que depois se chamou corpo de Adão. Assim o diz o texto original: Formavit Deus hominem de pulvere terrae (Gn 2, 7). A figura era humana e muito primorosamente delineada, mas a substância ou a matéria não era mais que pó. A cabeça pó, o peito pó, os braços pó, os olhos, a boca, a língua, o coração, tudo pó. Chega-se pois Deus à estátua, e que fez? Inspiravit in faciem ejus: Assoprou-a (Gn 2, 7). E tanto que o vento do assopro deu no pó: Et factus est homo in animam viventem: eis o pó levantado e vivo; já é homem, já se chama Adão. Ah! pó, se aquietaras e pararas aí! Mas pó assoprado, e com vento, como havia de aquietar? Ei-lo abaixo, ei-lo acima, e tanto acima, e tanto abaixo, dando uma tão grande volta, e tantas voltas. Já senhor do universo, já escravo de si mesmo; já só, já acompanhado; já nu, já vestido; já coberto de folhas, já de peles; já tentado, já vencido; já homiziado, já desterrado; já pecador, já penitente, e para maior penitência, pai, chorando os filhos, lavrando a terra, recolhendo espinhos por frutos, suando, trabalhando, lidando, fatigando, com tantos vaivens do gosto e da fortuna, sempre em uma roda viva. Assim andou levantado o pó enquanto durou o vento. O vento durou muito, porque naquele tempo eram mais largas as vidas, mas ao fim parou. E que lhe sucedeu no mesmo ponto a Adão? O que sucede ao pó. Assim como o vento o levantou, e o sustinha, tanto que o vento parou, caiu. Pó levantado, Adão vivo; pó caído, Adão morto: Et mortuus est.
Este foi o primeiro pó, e o primeiro vivo, e o primeiro condenado à morte, e esta é a diferença que há de vivos a mortos, e de pó a pó. Por isso na Escritura o morrer se chama cair, e o viver levantar-se. O morrer cair: Vos autem sicut hominas moriemini, et sicut unus de principibus cadetis [5]. O viver, levantar-se: Adolescens, tibi dico, surge [6]. Se levantados, vivos; se caídos, mortos; mas ou caídos ou levantados, ou mortos, ou vivos, pó: os levantados pó da vida, os mortos pó da morte. Assim o entendeu e notou Davi, e esta é a distinção que fêz quando disse: In pulvere mortis deduxisti me: Levastes-me, Senhor, ao pó da morte. Não bastava dizer: In pulverem deduxisti, assim como: In pulverem reverteris? Se bastava; mas disse com maior energia: In pulverem mortis: ao pó da morte, porque há pó da morte, e pó da vida: os vivos, que andamos em pé, somos o pó da vida: Pulvis es; os mortos, que jazem na sepultura, são o pó da morte: In pulverem reverteris.

V
O memento dos vivos; lembre-se o pó levantado que há de ser pó caído. O vento da vida e o vento da fortuna. A estátua de Nabucodonosor: o ouro, a prata, o bronze, o ferro, tudo se converte em pó de terra. Significado do nome de Adão. S. Agostinho e a glória de Roma. Roma, a caveira do mundo, ainda está sujeita a novas destruições. Salomão e o espelho do passado e do futuro. 
Um homem pode-se ver na caveira de outro homem
À vista desta distinção tão verdadeira e deste desengano tão certo, que posso eu dizer ao nosso pó senão o que lhe diz a Igreja: Memento homo. Dois mementos hei de fazer hoje ao pó: um memento ao pó levantado, outro memento ao pó caído; um memento ao pó que somos, outro memento ao pó que havemos de ser; um memento ao pó que me ouve, outro memento ao pó que não pode ouvir. O primeiro será o memento dos vivos, o segundo o dos mortos.
Aos vivos, que direi eu? Digo que se lembre o pó levantado que há de ser pó caído. Levanta-se o pó com o vento da vida, e muito mais com o vento da fortuna; mas lembre-se o pó que o vento da fortuna não pode durar mais que o vento da vida, e que pode durar muito menos, porque é mais inconstante. O vento da vida por mais que cresça, nunca pode chegar a ser bonança; o vento da fortuna, se cresce, pode chegar a ser tempestade, e tão grande tempestade que se afogue nela o mesmo vento da vida. Pó levantado, lembra-te outra vez que hás de ser pó caído, e que tudo há de cair e ser pó contigo. Estátua de Nabuco: ouro, prata, bronze, ferro, lustre, riqueza, fama, poder, lembra-te que tudo há de cair de um golpe, e que então se verá o que agora não queremos ver: que tudo é pó, e pó de terra. Eu não me admiro, senhores, que aquela estátua em um momento se convertesse toda em pó: era imagem de homem; isso bastava. O que me admira e admirou sempre é que se convertesse, como diz o texto, em pó de terra: In favillam aestivae areae (Dn 2, 35). A cabeça da estátua não era de ouro? Pois por que se não converte o ouro em pó de ouro? O peito e os braços não eram de prata? Por que se não converte a prata em pó de prata? O ventre não era de bronze, e o demais de ferro? Por que se não converte o bronze em pó de bronze e o ferro em pó de ferro? Mas o ouro, a prata, o bronze, o ferro, tudo em pó de terra? Sim. Tudo em pó de terra. Cuida o ilustre desvanecido que é de ouro, e todo esse resplendor, em caindo, há de ser pó, e pó de terra. Cuida o rico inchado que é de prata, e toda essa riqueza em caindo há de ser pó, e pó de terra. Cuida o robusto que é de bronze, cuida o valente que é de ferro, um confiado, outro arrogante, e toda essa fortaleza, e toda essa valentia em caindo há de ser pó, e pó de terra: In favillam aestivae areae.
Senhor pó: Nimium ne crede colori [7]. A pedra que desfez em pó a estátua, é a pedra daquela sepultura. Aquela pedra, é como a pedra do pintor, que mói todas as cores, e todas as desfaz em pó. O negro da sotaina, o branco da cota, o pavonaço do mantelete, o vermelho da púrpura, tudo ali se desfaz em pó. Adão quer dizer ruber, o vermelho, porque o pó do campo damasceno, de que Adão foi formado, era vermelho, e parece que escolheu Deus o pó daquela cor tão prezada, para nela, e com ela, desenganar a todas as cores [8]. Desengane-se a escarlata mais fina, mais alta e mais coroada, e desenganem-se daí abaixo todas as cores, que todas se hão de moer naquela pedra e desfazer em pó, e o que é mais, todas em pó da mesma cor. Na estátua o ouro era amarelo, a prata branca, o bronze verde, o ferro negro, mas tanto que a tocou a pedra, tudo ficou da mesma cor, tudo da cor da terra: In favillam aestivae areae. O pó levantado, como vão, quis fazer distinções de pó a pó, e porque não pôde distinguir a substância, pôs a diferença nas cores. Porém a morte, como vingadora de todos os agravos da natureza, a todas essas cores faz da mesma cor, para que não distinga a vaidade e a fortuna os que fez iguais a razão. Ouvi a S. Agostinho: Respice sepulchra et vide quis dominus, quis servus, quis pauper, quis dives? Discerne, si potes, regem a vincto, fortem a debili, pulchrum a deformi [9]: Abri aquelas sepulturas, diz Agostinho, e vede qual é ali o senhor e qual o servo; qual é ali o pobre e qual o rico? Discerne, si potes: distingui-me ali, se podeis, o valente do fraco, o formoso do feio, o rei coroado de ouro do escravo de Argel carregado de ferros? Distingui-los? Conhecei-los? Não por certo. O grande e o pequeno, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, o senhor e o escravo, o príncipe e o cavador, o alemão e o etíope, todos ali são da mesma cor.
Passa S. Agostinho da sua África à nossa Roma, e pergunta assim: Ubi sunt quos ambiebant civium potentatus? Ubi insuperabiles imperatores? Ubi exercituum duces? Ubi satrapae et tyranni [10]? Onde estão os cônsules romanos? Onde estão aqueles imperadores e capitães famosos, que desde o Capitólio mandavam o mundo? Que se fez dos Césares e dos Pompeus, dos Mários e dos Silas, dos Cipiões e dos Emílios? Os Augustos, os Cláudios, os Tibérios, os Vespasianos, os Titos, os Trajanos, que é deles? Nunc omnia pulvis: tudo pó; Nunc omnia favillae: tudo cinza; Nunc in paucis versibus eorum memoria est.: não resta de todos eles outra memória, mais que os poucos versos das suas sepulturas. Meu Agostinho, também êsses versos que se liam então, já os não há: apagaram-se as letras, comeu o tempo as pedras; também as pedras morrem: Mors etiam saxis, nominibusque venit [11]. Oh! que memento este para Roma!
Já não digo como até agora: lembra-te homem que és pó levantado e hás de ser pó caído. O que digo é: lembra-te Roma que és pó levantado, e que és pó caído juntamente. Olha Roma daqui para baixo, e ver-te-ás caída e sepultada debaixo de ti; olha Roma de lá para cima, e ver-te-ás levantada e pendente em cima de ti. Roma sobre Roma, e Roma debaixo de Roma. Nas margens do Tibre, a Roma que se vê para cima, vê-se também para baixo; mas aquilo são sombras. Aqui a Roma que se vê em cima, vê-se também embaixo, e não é engano da vista, senão verdade; a cidade sobre as ruínas, o corpo sobre o cadáver, a Roma viva sobre a morta. Que coisa é Roma senão um sepulcro de si mesma? Embaixo as cinzas, em cima a estátua; embaixo os ossos, em cima o vulto. Este vulto, esta majestade, esta grandeza é a imagem, e só a imagem, do que está debaixo da terra. Ordenou a Providência divina que Roma fosse tantas vezes destruída, e depois edificada sobre suas ruínas, para que a cabeça do mundo tivesse uma caveira em que se ver. Um homem pode-se ver na caveira de outro homem; a cabeça do mundo não se podia ver senão na sua própria caveira. Que é Roma levantada? A cabeça do mundo. Que é Roma caída? A caveira do mundo. Que são esses pedaços de Termas e Coliseus senão os ossos rotos e truncados desta grande caveira? E que são essas colunas, essas agulhas desenterradas, senão os dentes, mais duros, desencaixados dela! Oh! que sisuda seria a cabeça do mundo se se visse bem na sua caveira!
Nabuco, depois de ver a estátua convertida em pó, edificou outra estátua. Louco! Que é o que te disse o profeta? Tu rex es caput: Tu, rei, és a cabeça da estátua (Dn 2, 38). Pois se tu és a cabeça, e estás vivo, olhe a cabeça viva para a cabeça defunta, olhe a cabeça levantada para a cabeça caída, olhe a cabeça para a caveira. Oh! se Roma fizesse o que não soube fazer Nabuco! Oh! se a cabeça do mundo olhasse para a caveira do mundo! A caveira é maior que a cabeça para que tenha menos lugar a vaidade, e maior matéria o desengano. Isto fui, e isto sou? Nisto parou a grandeza daquele imenso todo, de que hoje sou tão pequena parte? Nisto parou. E o pior é, Roma minha, se me dás licença para que to diga, que não há de parar só nisto. Este destroço e estas ruínas que vês tuas, não são as últimas: ainda te espera outra antes do fim do mundo profetizado nas Escrituras. Aquela Babilônia de que fala S. João, quando diz no Apocalipse: Cecidit, cecidit Babylon (Ap 14, 8), é Roma, não pelo que hoje é, senão pelo que há de ser. Assim o entendem S. Jerônimo, S. Agostinho, S. Ambrósio, Tertuliano, Ecumênio, Cassiodoro, e outros Padres, a quem seguem concordemente intérpretes e teólogos [12]. Roma, a espiritual, é eterna, porque Portae inferi non praevalebunt adversus eam [13]. Mas Roma, a temporal, sujeita está como as outras metrópoles das monarquias, e não só sujeita, mas condenada à catástrofe das coisas mudáveis e aos eclipses do tempo. Nas tuas ruínas vês o que foste, nos teus oráculos lês o que hás de ser, e se queres fazer verdadeiro juízo de ti mesma pelo que foste e pelo que hás de ser, estima o que és.
Nesta mesma roda natural das coisas humanas, descobriu a sabedoria de Salomão dois espelhos recíprocos, que podemos chamar do tempo, em que se vê facilmente o que foi e o que há de ser. Quid est quod fuit? Ipsum quod futurum est. Quid est quod factum est? Ipsum quod faciendum est: Que é o que foi? Aquilo mesmo que há de ser. Que é o que há de ser? Aquilo mesmo que foi (Ecl 1, 9). Ponde estes dois espelhos um defronte do outro, e assim como os raios do ocaso ferem o oriente e os do oriente o ocaso, assim, por reverberação natural e recíproca, achareis que no espelho do passado se vê o que há de ser, e no do futuro o que foi. Se quereis ver o futuro, lede as histórias e olhai para o passado; se quereis ver o passado, lede as profecias e olhai para o futuro. E quem quiser ver o presente, para onde há de olhar? Não o disse Salomão, mas eu o direi. Digo que olhe juntamente para um e para outro espelho. Olhai para o passado e para o futuro, e vereis o presente. A razão ou conseqüência é manifesta. Se no passado se vê o futuro, e no futuro se vê o passado, segue-se que no passado e no futuro se vê o presente, porque o presente é o futuro do passado, e o mesmo presente é o passado do futuro. Quid est quod fuit? Ipsum quod futurum est. Quid est quod est? Ipsum quod fuit et quod futurum est. Roma, o que foste, isso hás de ser; e o que foste, e o que hás de ser, isso és. Vê-te bem nestes dois espelhos do tempo, e conhecer-te-ás. E se a verdade deste desengano tem lugar nas pedras, quanto mais nos homens. No passado foste pó? No futuro hás de ser pó? Logo, no presente és pó: Pulvis es.

VI
 O memento dos mortos: lembre-se o pó caído que há de ser pó levantado. O pó que foi homem, há de tornar a ser homem. compara-se à fênix e não à águia. O autor não teme a morte, teme a imortalidade, já reconhecida pelos filósofos pagãos. Nem vivemos como mortais, nem vivemos como imortais. A observação de Sêneca. 
Phoenix
Detail from Aberdeen Bestiary
Este foi o memento dos vivos; acabo com o memento dos mortos. Aos vivos disse: lembre-se o pó levantado que há de ser pó caído. Aos mortos digo: lembre-se o pó caído que há de ser pó levantado. Ninguém morre para estar sempre morto; por isso a morte nas Escrituras se chama sono. Os vivos caem em terra com o sono da morte: os mortos jazem na sepultura dormindo, sem movimento nem sentido, aquele profundo e dilatado letargo; mas quando o pregão da trombeta final os chamar a juízo, todos hão de acordar e levantar-se outra vez. Então dirá cada um com Davi: Ego dormivi, et soporatus sum, et resurrexi [14]. Lembre-se pois o pó caído que há de ser pó levantado.
Este segundo memento é muito mais terrível que o primeiro. Aos vivos disse: Memento homo quia pulvis es, et in pulverem reverteris; aos mortos digo com as palavras trocadas, mas com sentido igualmente verdadeiro: Memento pulvis quia homo es, et in hominem reverteris: lembra-te pó que és homem, e que em homem te hás de tornar. Os que me ouviram já sabem que cada um é o que foi e o que há de ser. Tu que jazes nesta sepultura, sabe-o agora. Eu vivo, tu estás morto; eu falo, tu estás mudo; mas assim como eu sendo homem, porque fui pó, e hei de tornar a ser pó, sou pó, assim tu, sendo pó, porque foste homem, e hás de tornar a ser homem, és homem. Morre a águia, morre a fênix, mas a águia morta não é águia, a fênix morta é fênix. E por que? A águia morta não é águia porque foi águia, mas não há de tornar a ser águia. A fênix morta é fênix, porque foi fênix, e há de tornar a ser fênix. Assim és tu que jazes nessa sepultura. Morto sim, desfeito em cinzas sim, mas em cinzas como as da fênix. A fênix desfeita em cinzas é fênix, porque foi fênix, e há de tornar a ser fênix. E tu desfeito também em cinzas és homem, porque foste homem, e hás de tornar a ser homem. Não é a proposição, nem comparação minha, senão da Sabedoria e Verdade eterna. Ouçam os mortos a um morto que melhor que todos os vivos conheceu e pregou a fé da imortalidade. In nidulo meo moriar, et sicut phoenix multiplicabo dies meos: Morrerei no meu ninho, diz , e como fênix multiplicarei os meus dias [15]. Os dias soma-os a vida, diminui-os a morte e multiplica-los a ressurreição. Por isso como vivo, como morto e como imortal se compara à fênix. Bem pudera este grande herói, pois chamou ninho à sua sepultura, comparar-se à rainha das aves, como rei que era.
Mas falando de si e conosco naquela medida em que todos somos iguais, não se comparou à águia, senão à fênix, porque o nascer águia é fortuna de poucos, o renascer fênix é natureza de todos. Todos nascemos pare morrer, e todos morremos para ressuscitar. Para nascer antes de ser, tivemos necessidade de pai e mãe que nos gerasse; pare renascer depois de morrer, como a fênix, o mesmo pó em que se corrompeu e desfez o corpo, é o pai e a mãe de que havemos de tornar a ser gerados. Putredini dixi: pater meus es, mater mea, et soror mea vermibus [16]. Sendo pois igualmente certa esta segunda metamorfose, como a primeira, preguemos também aos mortos, como pregou Ezequiel, para que nos ouçam mortos e vivos (Ez 37, 4). Se dissemos aos vivos: lembra-te homem que és pó, porque foste pó, e hás de tornar a ser pó — brademos com a mesma verdade aos mortos que já são pó: lembra-te pó que és homem porque foste homem, e hás de tornar a ser homem: Memento pulvis quia homo es, et in hominem reverteris.
Senhores meus, não seja isto cerimônia: falemos muito seriamente, que o dia é disso. Ou cremos que somos imortais, ou não. Se o homem acaba com o pó, não tenho que dizer; mas se o pó há de tornar a ser homem, não sei o que vos diga, nem o que me diga. A mim não me.faz medo o pó que hei de ser; faz medo o que há de ser o pó. Eu não temo na morte a morte, temo a imortalidade; eu não temo hoje o dia de cinza, temo hoje o dia de Páscoa, porque sei que hei de ressuscitar, porque sei que hei de viver para sempre, porque sei que me espera uma eternidade, ou no céu, ou no inferno. Scio enim quod Redemptor meus vivit, et in novissimo die de terra surrecturus sum [17]. Scio, diz. Notai. Não diz: Creio, senão, Scio, sei. Porque a verdade e certeza da imortalidade do homem não só é fé, senão também ciência. Por ciência e por razão natural a conheceram Platão, Aristóteles e tantos outros filósofos gentios [18]. Mas que importava que o não alcançasse a razão onde está a fé? Que importa a autoridade dos homens onde está o testemunho de Deus? O pó daquela sepultura está clamando: De terra surrecturus sum, et rursum circumdabor pelle mea, et in carne mea videbo Deum meum, quem visurus sum ego ipse, et oculi mei conspecturi sunt, et non alius [19]. Este homem, este corpo, estes ossos, esta carne, esta pele, estes olhos, este eu, e não outro, é o que há de morrer? Sim; mas reviver e ressuscitar à imortalidade. Mortal até o pó, mas depois do pó, imortal. Credis hoc? Utique, Domine [20]. Pois que efeito faz em nós este conhecimento da morte, e esta fé da imortalidade?
Quando considero na vida que se usa, acho que não vivemos como mortais, nem vivemos como imortais. Não vivemos como mortais, porque tratamos das coisas desta vida como se esta vida fora eterna. Não vivemos como imortais, porque nos esquecemos tanto da vida eterna, como se não houvera tal vida. Se esta vida fora imortal, e nós imortais, que havíamos de fazer, senão o que fazemos? Estai comigo. Se Deus, assim como fez um Adão, fizera dois, e o segundo fora mais sisudo que o nosso, nós havíamos de ser mortais como somos, e os filhos de outro Adão haviam de ser imortais. E estes homens imortais, que haviam de fazer neste mundo? Isto mesmo que nós fazemos. Depois que não coubessem no Paraíso, e se fossem multiplicando, haviam-se de estender pela terra, haviam de conduzir de todas as partes do mundo todo o bom, precioso e deleitoso que Deus para eles tinha criado, haviam de ordenar cidades e palácios, quintas, jardins, fontes, delícias, banquetes, representações, músicas, festas, e tudo aquilo que pudesse formar uma vida alegre e deleitosa. Não é isto o que nós fazemos? E muito mais do que eles haviam de fazer, porque o haviam de fazer com justiça, com razão, com modéstia, com temperança; sem luxo, sem soberba, sem ambição, sem inveja; e com concórdia, com caridade, com humanidade. Mas como se ririam de nós, e como pasmariam de nós aqueles homens imortais! Como se ririam das nossas loucuras, como pasmariam da nossa cegueira, vendo-nos tão ocupados, tão solícitos, tão desvelados pela nossa vidazinha de dois dias, e tão esquecidos, e descuidados da morte, como se fôramos tão imortais como eles! Eles sem dor, nem enfermidade; nós enfermos e gemendo; eles vivendo sempre, nós morrendo; eles não sabendo o nome à sepultura, nós enterrando uns a outros; eles gozando o mundo em paz, e nós fazendo demandas e guerras pelo que não havemos de gozar. Homenzinhos miseráveis — haviam de dizer — homenzinhos miseráveis, loucos, insensatos; não vedes que sois mortais? Não vedes que haveis de acabar amanhã? Não vedes que vos hão de meter debaixo de uma sepultura, e que de tudo quanto andais afanando e adquirindo, não haveis de lograr mais que sete pés de terra? Que doidice, que cegueira é logo a vossa? Não sendo como nós, quereis viver como nós? — Assim é. Morimur ut mortales, vivimus ut immortales: morreremos como mortais que somos, e vivemos como se fôramos imortais [21]. Assim o dizia Sêneca gentio à Roma gentia. Vós a isto dizeis que Sêneca era um estóico. E não é mais ser cristão que ser estóico? Sêneca não conhecia a imortalidade da alma; o mais a que chegou foi a duvidá-la, e contudo entendia isto.

VII
Cuidar da vida imortal. As duas portas da morte. Opinião de Aristóteles . A escada do sonho de Jacó. No momento da morte não se teme a morte, teme-se a vida. Resolução. 
Terribilis est locus iste!
A escada de Jacó
Ora, senhores, já que somos cristãos, já que sabemos que havemos de morrer e que somos imortais, saibamos usar da morte e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais. Pode haver loucura mais rematada, pode haver cegueira mais cega que empregar-me todo na vida que há de acabar, e não tratar da vida que há de durar para sempre? Cansar-me, afligir-me, matar-me pelo que forçosamente hei de deixar, e do que hei de lograr ou perder para sempre, não fazer nenhum caso! Tantas diligências para esta vida, nenhuma diligência para a outra vida? Tanto medo, tanto receio da morte temporal, e da eterna nenhum temor? Mortos, mortos, desenganai estes vivos. Dizei-nos que pensamentos e que sentimentos foram os vossos quando entrastes e saístes pelas portas da morte? A morte tem duas portas: Qui exaltas me de portis mortis [22]. Uma porta de vidro, por onde se sai da vida, outra porta de diamante, por onde se entra à eternidade. Entre estas duas portas se acha subitamente um homem no instante da morte, sem poder tornar atrás, nem parar, nem fugir, nem dilatar, senão entrar para onde não sabe, e para sempre. Oh! que transe tão apertado! Oh! que passo tão estreito! Oh! que momento tão terrível! Aristóteles disse que entre todas as coisas terríveis, a mais terrível é a morte. Disse bem mas não entendeu o que disse. Não é terrível a morte pela vida que acaba, senão pela eternidade que começa. Não é terrível a porta por onde se sai; a terrível é a porta por onde se entra. Se olhais para cima, uma escada que chega até o céu; se olhais para baixo, um precipício que vai parar no inferno, e isto incerto.
Dormindo Jacó sobre uma pedra, viu aquela escada que chegava da terra até o céu, e acordou atônito gritando: Terribilis est locus iste! Oh! que terrível lugar é este (Gn 18, 17)! E por que é terrível, Jacó? Non est hic aliud nisi domus Dei et porta caeli: Porque isto não é outra coisa senão a porta do céu. — Pois a porta do céu, a porta da bem-aventurança é terrível? Sim. Porque é uma porta que se pode abrir e que se pode fechar. É aquela porta, que se abriu para as cinco virgens prudentes, e que se fechou para as cinco néscias: Et clausa est janua (Mt 25, 10). E se esta porta é terrível para quem olha só para cima, quão terrível será para quem olhar para cima e mais para baixo? Se é terrível para quem olha só para o céu, quanto mais terrível será para quem olhar para o céu e para o inferno juntamente? Este é o mistério de toda a escada, em que Jacó não reparou inteiramente, como quem estava dormindo. Bem viu Jacó que pela escada subiam e desciam anjos, mas não reparou que aquela escada tinha mais degraus para descer que para subir: para subir era escada da terra até o céu, para descer era escada do céu até o inferno; para subir era escada por onde subiram anjos a ser bem-aventurados, para descer era escada por onde desceram anjos a ser demônios. Terrível escada para quem não sobe, porque perde o céu e a vista de Deus, e mais terrível para quem desce, porque não só perdeu o céu e a vista de Deus, mas vai arder no inferno eternamente. Esta é a visão mais que terrível que todos havemos de ver; este o lugar mais que terrível por onde todos havemos de passar, e por onde já passaram todos os que ali jazem. Jacó jazia sobre a pedra; ali a pedra jaz sobre Jacó, ou Jacó debaixo da pedra. Já dormiram o seu sono: Dormierunt somnum suum (Sl 75, 6); já viram aquela visão; já subiram ou desceram pela escada. Se estão no céu ou no inferno, Deus o sabe; mas tudo se averiguou naquele momento.
Oh! que momento, torno a dizer, oh! que passo, oh! que transe tão terrível! Oh que temores, oh! que aflição, oh! que angústias! Ali, senhores, não se teme a morte, teme-se a vida. Tudo o que ali dá pena, é tudo o que nesta vida deu gosto, e tudo o que buscamos por nosso gosto, muitas vezes com tantas penas. Oh! que diferentes parecerão então todas as coisas desta vida! Que verdades, que desenganos, que luzes tão claras de tudo o que neste mundo nos cega! Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas: ou não ter nascido, ou tornar a nascer de novo, para fazer uma vida muito diferente. Mas já é tarde, já não há tempo: Quia tempus non erit amplius (Apc 10, 6). Cristãos e senhores meus, por misericórdia de Deus ainda estamos em tempo. É certo que todos caminhamos para aquele passo, é infalível que todos havemos de chegar, e todos nos havemos de ver naquele terrível momento, e pode ser que muito cedo. Julgue cada um de nós, se será melhor arrepender-se agora, ou deixar o arrependimento para quando não tenha lugar, nem seja arrependimento. Deus nos avisa, Deus nos dá estas vozes; não deixemos passar esta inspiração, que não sabemos se será a última. Se então havemos de desejar em vão começar outra vida, comecemo-la agora: Dixi: nunc caepi [23]. Comecemos de hoje em diante a viver como quereremos ter vivido na hora da morte. Vive assim como quiseras ter vivido quando morras. Oh! que consolação tão grande será então a nossa, se o fizermos assim! E pelo contrário, que desconsolação tão irremediável e tão desesperada, se nos deixarmos levar da corrente, quando nos acharmos onde ela nos leva! É possível que me condenei por minha culpa e por minha vontade, e conhecendo muito bem o que agora experimento sem nenhum remédio? É possível que por uma cegueira de que me não quis apartar, por um apetite que passou em um momento, hei de arder no inferno enquanto Deus for Deus? Cuidemos nisto, cristãos, cuidemos nisto. Em que cuidamos, e em que não cuidamos? Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós, não se acabe com este dia a memória da morte. Resolução, resolução uma vez, que sem resolução nada se faz. E para que esta resolução dure e não seja como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora. De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não dará uma hora à triste alma? Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta quaresma. Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e conosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida. E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora. Primeiro: quanto tenho vivido? Segundo: como vivi? Terceiro: quanto posso viver? Quarto: como é bem que viva? Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo

Miércoles de Ceniza - 1881
Julian Fałat



COMEÇA A QUARESMA

[1] Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás de converter.
[2] Aquele que é, e que era, e que há de vir (Apc 1,4).
[3] Eu disse: Sois deuses... Mas vós, como homens, morrereis (Sl 81,6s).
[4] Desde o ventre trasladado para a sepultura (Jó 10,19).
[5] Mas vós como homens morrereis, e caireis como um dos príncipes (Sl 81,7).
[6] Moço, eu te mando: levanta-te (Lc 7,14).
[7] Não dês crédito ao demasiado colorido.
[8] Hieronymus hic in quaest. Hebraic. Lyran. Hugo Abul. etc.
[9] Augustinus in sentent ultima.
[10] Aug. ibid.
[11] Também as pedras e os nomes morrem.  
[12] Hier. Aug. Ambr. Tertullian. Ecumen. Cassiod. Bellar. Suar. et plures apud Cornelium ibi.
[13] As portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16,18).
[14] Eu dormi e estive sepultado no sono, e levantei-me (Sl 3,6)
[15] In textu graeco Job 29, 18.
[16] Eu disse à podridão: Tu és meu pai; e aos bichos: Vós sois minha mãe e minha irmã. (Jó 17, 14)
[17] Porque eu sei que o meu Remidor vive, eu no derradeiro dia surgirei da terra (Jó 19,25).
[18] Plat. in Timaeo. Philabo Menon. Et lib. de Rep. Aristotel. I de Anima cap. 4 et lib. 3, cap. 4 et lib. 2 de Gen. anim.
[19] Surgirei da terra, e serei novamente revestido da minha pele, e na minha própria carne verei a meu Deus, a quem eu mesmo hei de ver e meus olhos hão de contemplar, e não outro (Jó 19,25 ss).
[20] Crês isto? Sim, Senhor (Jo 11,26).
[21] Seneca. De Consolat. ad Marciam Ep. 57 et Ep. 117.
[22] Tu que me retiras das portas da morte (Sl 9,15).
[23] Disse: Agora começo (Sl 76,11).

MISSAS